No terceiro campeonato sul-americano, realizado no Brasil, conquistamos nosso primeiro titulo. A final foi contra o Uruguai em memorável partida realizada no dia 29 de maio de 1919, no estádio das Laranjeiras no Rio de Janeiro. Naquela tarde, o publico lotou o estádio do Fluminense. O juiz, Juan Barbera, argentino, entrou em campo com um garboso uniforme: calção, paletó e gravata. A seleta platéia estava bem a vontade. Os cavalheiros usavam chapéus e as damas, muito elegantes, exibiam seus longos vestidos de seda. As autoridades, na tribuna de honra, apresentavam-se de fraque e cartola. No gramado os craques estava impecáveis. Cabelos curtos repartidos no meio, alguns de bigode bem cuidado, sérios e compenetrados, eles arrancavam suspiros do publico feminino. O estádio do Fluminense foi construído especialmente para o sul-americano de 1919. E foi a partir desta final que o futebol se tornou o mais popular esporte do Brasil. Nem todos tinham dinheiro suficiente para comprar os caros ingressos da grande final. Quem não entrava, porém, dava um jeito de se acomodar num morro existente nas Laranjeiras, com vistas para o estádio do Fluminense. Ou se aglomerava na frente do Jornal do Brasil, na Avenida Rio Branco, à espera do resultado da partida.
Para os cariocas, maio de 1919, foi mês de festa e futebol. As festas começaram com a chegada as delegações no cais da praça Mauá. Houve recepções no Palácio do Itamarati, bailes no Clube São Cristovão, banquetes no Restaurante Assyrio e chás na Confeitaria Colombo. A celebração não foi maior porque, em pleno torneio, o goleiro reserva uruguaio Robert Chery morreu em seu quarto, no Hotel dos Estrangeiros, vitima de uma crise de apendicite.
A decisão foi entre o Brasil, anfitrião, e o Uruguai, na qualidade de bi campeão. O Brasil venceu o Chile por 6×1 e a Argentina por 3×1. O Uruguai ganhou dos chilenos por 2×0 e os argentinos por 3×2. No jogo final, o tempo regulamentar terminou com 2×2, num partida cheia de alternativas. O regulamento previa a realização de uma nova partida e, em caso de outro empate, haveria tantas prorrogações quantas fossem necessária. Mais uma vez, tudo indicava que o segundo e último jogo também seria equilibrado porque as equipes se nivelavam.
As onze horas da manhã o estádio das Laranjeiras já estava lotado. Vinte mil torcedores bem trajados estavam dentro do campo do Fluminense. Emoções é que não faltaram. Desde do início, as duas seleções buscaram o gol que valeria o titulo. Houve bolas na traves e chances perdidas de ambos os lados. Os noventa minutos terminou em zero a zero. Primeira prorrogação também zero a zero. Mais trinta minutos. Começou a escurecendo e se não fizessem um gol, a partida não terminaria. A torcida inquieta, antevê o gol a cada instante. E o gol não sai. A agonia termina aos 13 minutos do primeiro tempo da segunda prorrogação. Numa bola cruzada, Neco cabeceia, vários uruguaios pulam e Saporiti rebate de punhos. Friedenreich, que vinha correndo, chutou forte à meia altura, bem no meio do gol.
Leques, luvas, cartolas e chapéus voaram nas arquibancadas, de onde os torcedores gritavam o nome de artilheiro Friedenreich. Depois de duas horas e meia de jogo, o Brasil ganhava o sul-americano e conquistava seu primeiro titulo importante. As ruas se encheram de gente e carros foram em corso para a avenida Rio Branco. Pela primeira vez, jogar bola deixava de ser um passatempo exclusivo de ricos e virava a alegria do povo.

Detalhes técnicos do jogo –
Dia: 20. maio. 1919
Brasil 1 x Uruguai 0
Gol de Friedenreich
Juiz: Juan Barbera (Argentino)
Publico: 20.000 torcedores
Brasil: Marcos de Mendonça. Pindaro e Biano. Sérgio. Amilcar e Fortes. Milton. Neco. Friedenreich. Heitor e Arnaldo.
Uruguai: Saporiti. Varela e Foglino. Naguil. Zibechi e Vanzine. Peres. Scarone. Romano. Gradin e Marán.

   
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