No início de 1934, já prevendo o que poderia acontecer, a imprensa do Rio e de São Paulo procurou se empenhar numa campanha para que a briga entre as entidades de regime de futebol amador e profissional do Rio e São Paulo não prejudicasse a participação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.

Eduardo Trindade, presidente da Amea, sugeriu a adoção de um regime misto, previsto nos estatutos da Confederação Brasileira de Desportos, com o objetivo de se chegar a um acordo. No entanto, a Liga Paulista de Futebol e a Liga Carioca de Futebol negaram ceder seus jogadores à CBD. Com a negativa, coube a Carlos Martins da Rocha, o “Carlito Rocha”, dirigente do Botafogo, a tarefa de montar a Seleção.

Carlito Rocha era profundo conhecedor de futebol. Experiente, sabia que iria necessitar de uma equipe forte para a disputa do torneio. O primeiro passo foi acertar com o técnico, Luis Vinhais, vencedor de duas edições da Copa Rio Branco. Em seguida, partiu em busca dos profissionais, uma atitude considerada leviana, pois como poderia um defensor ferrenho do amadorismo contratar atletas profissionais? Mas, na verdade, ele tinha conhecimento de que só com amadores não chegaria a lugar algum. Na capital paulista, contratou quatro jogadores da equipe do São Paulo. Após uma partida contra a Portuguesa de Desportos, Sylvio Hoffmann, Luizinho, Waldemar de Britto e Armandinho embarcaram às escondidas para o Rio de Janeiro. No Rio Grande do Sul, acertou com Luiz Luz e Patesko. No Rio de Janeiro, o único clube prejudicado foi o Vasco da Gama: perdeu Tinoco e Leônidas da Silva. Corria o boato de que a CBD havia assinado contrato com estes atletas pagando 30 contos de luvas e ordenado de 1 conto de réis. Esta atitude levou o “Jornal dos Sports” a estampar, em sua primeira página, a seguinte manchete: “Patriotismo por 30 contos”. Pouco adiantou todo o esforço. A Seleção Brasileira partiu para disputar a sua segunda Copa do Mundo sem qualquer planejamento, numa viagem cansativa, de doze dias de duração, a bordo do navio “Conte de Biancamano”.

Os treinos visando à preparação física do grupo, como em 1930, eram realizados no convés do navio. As únicas exceções ocorreram quando o navio aportou em Barcelona, para o embarque dos espanhóis, nossos adversários. Os jogadores fizeram um pequeno treino recreativo de aproximadamente, quarenta minutos e, posteriormente, um único treino num campo de dimensões reduzidas próximo ao Estádio Luigi Ferraris. Muito pouco para quem enfrentaria uma das melhores seleções da Europa em sistema eliminatório.

Não deu outra, a Espanha venceu por 3 a 1. Os espanhóis começaram o jogo muito concentrados e com menos de 30 minutos, já venciam por 3 a 0. Iraragorri fez 1 a 0, em cobrança de pênalti. Oito minutos depois, Lángara marcou o segundo, pouco mais de três minutos haviam se passado e o próprio Lángara marcou o terceiro gol espanhol. No segundo tempo, o Brasil melhorou. Leônidas pegou um rebote do goleiro Zamora e descontou aos 55. Mesmo assim tivemos a chance de até empatar o jogo. Aos 59 minutos, Luizinho teve um gol mal anulado pelo árbitro, que marcou impedimento. Aos 62 minutos, pênalti a favor do Brasil. Waldemar de Britto bateu e Zamora defendeu.

Mas foi uma partida repleta de erros do árbitro alemão Alfred Birlen. Os brasileiros saíram reclamando de um pênalti não marcado contra a Espanha, quando zagueiro Quincoces tirou a bola com a mão em cima da linha de gol, Leônidas chutou, Zamora ficou batido e o zagueiro cometeu o pênalti. Reclamações à parte a Espanha venceu por 3 a 1. O Brasil estava novamente fora da Copa. A campeã foi à Itália, que venceu a Tchecoslováquia na final por 2 a 1.

FICHA DO JOGO

27 de maio de 1934 (16:30)

ESPANHA 3:1 BRASIL (3:0)

Local: Estádio Luigi Ferraris, em Genoa.

Público: 16500 espectadores.

ESPANHA: Zamora (Madrid FC); Ciriaco (Madrid FC) e Quincoces (Madrid FC); Cilauren (Athletic C. Bilbao), Muguerza (Athletic C. Bilbao) e Márculeta (Dinostia FC); Iraragorri (Athletic C. Bilbao), Lángara (Oviedo FC), Lecue (Real Betis BS), Lafuente (Athletic C. Bilbao) e Gorostiza (Athletic C. Bilbao).

Técnico: Amadeo García Salazar.

BRASIL: Pedrosa (Botafogo FC-RJ); Sylvio Hoffman (CBD) e Luiz Luz (CBD); Tinoco (CBD), Martim (Botafogo FC-RJ) e Canalli (Botafogo FC-RJ); Luizinho (CBD), Waldemar de Britto (CBD), Leônidas (CBD), Armandinho (CBD) e Patesko (CBD).

Técnico: Luis Augusto Vinhaes.

Gols: 1:0 Iraragori (pênalti), aos 18; 2:0 Lángara, aos 25; 3:0 Lángara, aos 29; 3:1 Leônidas, aos 55.

Árbitro: Alfred Birlem (Alemanha).

Assistentes: Ettori Carminati (Itália), Mihaly Ivanicsic (Hungria).

DELEGAÇÃO DO BRASIL

APELIDO
NOME COMPLETO
POS
NASCIMENTO
MORTE
CLUBE

ARIEL
Ariel Augusto Nogueira
M
22/02/1910 (Petrópolis)
não disponível
Botafogo FC-RJ

ARMANDINHO
Armando dos Santos
A
03/06/1911 (São Carlos)
26/05/1972 (São Paulo)
CBD

ÁTILLA
Attila de Carvalho
A
16/12/1910 (Rio de Janeiro)
não disponível
Botafogo FC-RJ

CANALLI
Heitor Canalli
M
31/03/1910 (Juiz de Fora)
21/07/1990 (Juiz de Fora)
Botafogo FC-RJ

CARVALHO LEITE
Carlos Aantonio Dobbert de Carvalho Leite
A
25/05/1912 (Rio de Janeiro)
19/05/2004 (Rio de Janeiro)
Botafogo FC-RJ

GERMANO
Germano Boetcher Sobrinho
G
14/03/1911 (Rio de Janeiro)
09/06/1977 (Rio de Janeiro)
Botafogo FC-RJ

LEÔNIDAS DA SILVA
Leonidas da Silva
A
06/09/1913 (Rio de Janeiro)
24/01/2004 (São Paulo)
CBD

LUISINHO
Luis Mesquita de Oliveira
A
29/03/1911(Rio de Janeiro)
27/12/1983 (São Paulo)
CBD

LUIZ LUZ
Luiz dos Santos Luz
D
26/01/1909 (Porto Alegre)
27/08/1989 (Porto Alegre)
CBD

MARTIM
Martim Mercio da Silveira
M
02/03/1911 (Bagé)
16/08/1972 (Rio de Janeiro)
Botafogo FC-RJ

OCTACÍLIO
Octacilio Pinheiro Guerra
D
21/11/1909 (Porto Alegre)
26/02/1967 (Porto Alegre)
Botafogo FC-RJ

PATESKO
Rodolpho Barteczko
A
12/11/1910 (Curitiba)
13/03/1988 (Rio de Janeiro)
CBD

PEDROSA
Roberto Gomes Pedrosa
G
08/07/1913 (Rio de Janeiro)
06/01/1954 (São Paulo)
Botafogo FC-RJ

SYLVIO HOFFMANN
Sylvio Hoffmann Mazzi
D
11/05/1908 (Rio de Janeiro)
15/11/1991 (Rio de Janeiro)
CBD

TINOCO
Alfredo Alves Tinoco
M
02/12/1904 (Rio de Janeiro)
04/07/1975 (Rio de Janeiro)
CBD

WALDYR
Waldyr Guimarães
M
21/03/1912 (Rio de Janeiro)
1997 (Rio de Janeiro)
Botafogo FC-RJ

WALDEMAR DE BRITTO
Waldemar de Britto
A
17/03/1913 (São Paulo)
21/12/1979 (São Paulo)
CBD

TÉCNICO

LUÍS VINHAES

(Luís Augusto Vinhaes. Nascimento: 11/03/1896, Rio de Janeiro. Morte: 04/04/1960, Rio de Janeiro).

UNIFORME DO BRASIL
Uniforme_Brasil_1934

   
© 2014 História do Futebol-Final Suffusion theme by Sayontan Sinha