Imagine um vestiário de um time de futebol no intervalo de uma partida com “boleiros” ofegantes, falatório dos exaltados e um técnico em busca de ajustes na equipe. Mas acreditem: Avelino isolou-se desse ambiente quando dirigia o CAT (Clube Atlético Taquaritinga) num jogo noturno contra o Guarani, no Brinco de Ouro, na década de 80. O time jogava mal e o revoltado Avelino se recusou a entrar no vestiário para as orientações de praxe aos jogadores, após derrota por 2 a 0 no primeiro tempo. O treinador colocou uma cadeira no túnel que dá acesso ao vestiário e com um canivete afiado descascava e chupava laranjas com se tivesse num momento de descontração.

– Mas João, você não vai dar instrução para o seu time – questionou o radialista Paulo Moraes, na época repórter da Rádio Central, de Campinas.

– Não -, retrucou Avelino. – Nada entra na cabeça desses caras. Falar e não falar dá na mesma -, justificou.

Assim era o folclórico Avelino, que antes de adoecer permaneceu ligado ao futebol como consultor para treinadores e cartolas. Transmitia um pouco de catimba e malandragem que usava no futebol.

Certa ocasião, Avelino foi trabalhar no Fortaleza e se espantou com o tamanho do goleiro, pouco mais de 1,70m de altura. E sabem o que o técnico fez para resolver o problema? Mandou diminuir a altura da trave. E quando perceberam a tramóia, Avelino já havia festejado um título cearense perseguido há cinco anos.

SUPERSTIÇÃO

Em 1959, o Guarani corria sério risco de rebaixamento à segunda divisão paulista e tinha um jogo decisivo contra o favorito Santos, no Brinco de Ouro. E sabem o que fez Avelino? Exigiu que os jogadores bugrinos usassem meias pretas, nada a ver com as tradicionais cores verde e branca do Bugre.

Superstição ou não, o certo é que o Guarani teve uma atuação fantástica naquela partida e ganhou do Peixe por 3 a 2, dois gols de Ferrari – um ponteiro-direito adaptado à lateral-esquerda – e outro de Rodrigo.

Avelino foi homem de confiança do técnico Osvaldo Brandão e por isso foi seu auxiliar por muito tempo. O “casamento” foi batizado de “corda e caçamba” e Avelino era a caçamba.

O técnico Antonio Augusto, o Pardal, conta que Avelino foi o inventor do treino coletivo sem bola. É isso aí mesmo: coletivo sem bola. “O João ficava cantando as jogadas e o atleta simulava estar com a bola”, detalhou Pardal. Naquele treino, de repente Avelino gritava para o ponteiro cruzar, para o atacante driblar e chutar para o gol, tudo sem a bola. E os obedientes goleiros cumpriam à risca a maluquice do treinador, copiada posteriormente por outros profissionais.

Os técnicos Palhinha e Basílio, amigos pessoais de Avelino, lembram que quando o mestre deparava com jogadores de chutes fracos dava-lhes uma bolota de cinco quilos, para fazerem embaixadas, visando ganhar força muscular e pegar mais forte na bola.

João era assim: diferente, catimbeiro e folclórico. Por isso escreveu uma bonita página no futebol brasileiro. Então, que descanse em paz.

Jornalista Ariovaldo Izac

   
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