Nos alfarrábios do passado, pesquisando no Jornal dos Sports descobri uma preciosidade histórica: Há 52 anos o Bangu Atlético Clube conquistava o mundo. Atualmente, Fluminense e Palmeiras lutam junto a FIFA pelo direto de serem considerados campeões mundiais de clubes em 1951 e 1952 respectivamente, pelas conquistas em torneios de grande relevância da época.

Talvez pela falta de dinheiro, o Bangu também não tenha entrado nessa disputa para pleitear tal honraria, mas o fato é: os Mulatinhos Rosados também fizeram história, conquistando o título de forma invicta, em 1960, num torneio que reuniu grandes times como o Bayern Munique (Alemanha),   Nice (França)Estrela Vermelha de Belgrado (Iugoslávia), Sampdoria (Itália), Sporting Lisboa (Portugal), entre outros.

Tudo começou quando o Bangu foi convidado para participar do Torneio de Nova York, nos EUA, que contava com as principais forças do futebol mundial. Antes dos anos 60 não havia nenhum campeonato que desse ao clube vencedor este título de campeão mundial. Apenas dois clubes brasileiros, o Palmeiras (1951) e o Fluminense (1952), poderiam dizer que venceram um certame de relativa importância internacional: a Copa Rio dos referidos anos.

A ideia do torneio foi do milionário William Cox, foi criada a International Soccer League, que organizaria anualmente, um certame de âmbito mundial, reunindo os principais clubes de vários países. Nesta primeira edição, os jogos seriam realizados apenas em Nova York e Nova Jersey. Dos convidados, a única equipe sul-americana seria do Brasil, atual campeão mundial em 1958. Como ainda não existia um Brasileiro que pudesse apontar um representante para o Torneio Internacional, Bill Cox resolveu escolher um grande time, que em 1959 tivesse conquistado um título nos grandes centros (Rio ou São Paulo).

O Fluminense, campeão Carioca em 1959, e Palmeiras, campeão Paulista, não poderiam participar do torneio por estarem disputando o Torneio Rio-São Paulo. O convite, então, acabou chegando às mãos do Bangu, que era o atual vice-campeão carioca. O alvirrubro cancelou uma viagem marcada para a Europa, para poder disputar o primeiro Mundial Interclubes, em Nova York.

Sem saber ao certo se aquela aventura pelas terras norte-americanas seria rentável financeiramente, o presidente do Bangu, Maurício César Buscácio, ao contrário dos dirigentes de Fluminense e Palmeiras, preferiu arriscar. Naquele momento, era mais importante o título do que os lucros que, vieram depois.

 

HISTÓRIA DA PRIMEIRA FASE

 

Sampdoria caiu de quatro

A estreia foi no dia 4 de julho, feriado nos EUA pelo Dia da Independência. O Bangu enfrentou a Sampdoria e não tomou conhecimento, ao goleá-la por 4 a 0, no Estádio Polo Grounds. O atacante Zé Maria abriu o placar aos 18 minutos da primeira etapa. Luís Carlos ampliou aos 21 minutos da segunda etapa. Três minutos depois, novamente, Zé Maria transformou em goleada e Luís Carlos fez o bis aos 32 minutos, dando números finais a peleja.

O fato curioso foi um certo Ademir da Guia, que ainda menino fazia seu primeiro ano de profissional, após o jogo foi comparado ao jogador de basquete norte-americano, Marques Haynes. Sua habilidade com a bola encantou tanto ao público quanto uma exibição do Globetrotter. Apesar dos elogios, acreditem: Ademir da Guia era apenas um reserva.

 

Vitória suada no segundo jogo

Após a estreia avassaladora, a expectativa era de nova goleada, mas… A história não foi tão fácil assim. No dia 10 de julho, o Bangu venceu, de virada, o Rapid Wien (Áustria) por 3 a 2, no Estádio Polo Grounds. Os austríacos saíram na frente logo aos 5 minutos, por intermédio de Rudolf Flogel. Porém os Mulatinhos Rosados controlaram os nervos e conseguiram a virada antes de irem para vestiário com Beto e Luís Carlos. Na segunda etapa, já com o domínio das ações, o Bangu ampliou aos 13 minutos com Zózimo. O time relaxou e os europeus diminuíram aos 32 minutos com Walter Skocik.

 

Os portugueses pagaram o pato

O técnico Tim não gostou da última atuação e deu uma bronca dos jogadores. O resultado pôde ser visto no dia 16 de julho, quando o Bangu arrasou o Sporting Lisboa (Portugal) por 5 a 1, no Estádio Polo Grounds. No primeiro tempo, o Alvirrubro já tinha despacho os portugueses por três a zero, com gols de Zé Maria (dois) e Luís Carlos. No segundo tempo, Hugo Sarmento diminuiu, mas Beto e Luís Carlos fecharam a vitória acachapante.

 

Retranca suécia

depois de três vitórias, quando o atacante marcou 12 gols, o quarto jogo foi marcado pelo medo dos suecos em serem outra vítima. Com o intuito de não passar vergonha, o Norrkoping segurou o Bangu, no dia 20 de julho, e conquistou um heroico empate em 0 a 0, no Estádio Polo Grounds. O grande nome da partida foi o goleiro sueco Henry Christensson, que praticou 19 intervenções difíceis, a ponto de ter sido o destaque da página do The New York Times.

 

Estrela Vermelha de raiva

No último jogo, o empate contra os suecos, obrigava o Bangu a ter de vencer o Estrela Vermelha, atual campeão da Iugoslávia, para avançar a final do Torneio de Nova York. Então, na segunda-feira, no dia 31 de julho de 1960, o Alvirrubro se impôs e venceu com autoridade por 2 a 0, no Estádio Polo Grounds, com gols dos atacantes Décio Esteves aos 15 minutos do primeiro tempo e Zé Maria aos 24 minutos da etapa final. Final de partida, o Bangu chegava à decisão, jogando um futebol arte.

 

Bangu… Campeão do Mundo

Num domingo, no dia de 6 de agosto, ficou marcado para sempre na história do Bangu, a equipe comandada por Tim entrou em campo, sonhando em se tornar o melhor time do planeta. O local era o Estádio Polo Grounds e o adversário o clube escocês Kilmarnock. Mas o protagonista dessa história foi o Bangu. Repetindo o mesmo roteiro, os Mulatinhos Rosados colocaram Kilmarnock na roda e venceram po2 a 0, fora o baile. Após o final, o mundo conheceu quem era o Bangu. Os gigantes da bola e legítimos representantes do futebol brasileiro.

 

OS GRUPOS

O Mundial Interclubes teve 12 clubes, divididos em dois grupos de seis:  

Grupo A: Bayern Munique (Alemanha), Burnley (Inglaterra), Glenavon (Irlanda do Norte), Kilmarnock (Escócia), New York Americans (EUA), Olympic Gymnaste Club Nice (França).

Grupo B: Bangu AC, Estrela Vermelha de Belgrado (Iugoslávia), Norrkoping (Suécia), Sampdoria (Itália), Sporting Lisboa (Portugal) e Rapid Wien (Áustria).

 

ESCRETE BANGUENSE

O Bangu enviou 17 jogadores. O escrete titular era: Ubirajara, Joel e Darci Faria; Zózimo, Ananias e Nilton dos Santos; Correia, Zé Maria, Décio Esteves, Valter e Beto. Técnico: Elba de Pádua Lima, ‘Tim’. Os reservas: Aílton, Mário Tito, Paulo César, Ademir da Guia, Luís Carlos e Durval. 

Fotos: Arquivo JS

  6 Responses to “Em 1960: Bangu A.C. um legitimo campeão do mundo”

  1. Então terá reportagem sobre o Mecão na Terra do Tio Sam! Rs
    Quando sobrar um tempinho vou começar a pesquisar essa campanha!
    Valeu Walter pelas informações!

    Abração!

  2. Sérgio.
    Salvo engano, o jornalista credenciado que acompanhou a delegação do America era do Jornal dos Sports. . A cobertura da 1ª parte do torneio foi fraca, pois várias partidas foram jogadas no período da Copa do Mundo.

  3. Ielo, agredeço pelas suas palavras. Realmente é um fato relevante, não só para o Bangu ou Rio de Janeiro, mas para o futebol Brasileiro.
    Quando publiquei essa reportagem no jornal (há dois anos, quando completou meio-século), o presidente do Bangu A.C., Jorge Varella me ligou para agradecer. Lembro-me que na época ele confidenciou o desejo de lutar para que esse título fosse reconhecido pela FIFA. Porém, a falta de grana!
    Mas a sua sugestão é excelente. Depois vou entrar em contato com o Jorge e passar a sua sugestão que é ótima!
    Um grande abraço.

  4. Sergio e amigos,

    Excelente artigo, e importantissimo para divulgação deste feito internacional, incluindo o comentário do Walter.

    Independente do reconhecimento ou não pela FIFA, o fato histórico existiu, e deve ser divulgado e eternizado. Quanto ao reconhecimento, acredito que deva ser revindicado, e para tanto, não há necessidade de uma soma grande de dinheiro para fazer o pedido. Vejamos:

    1. Elaborar relatório dos fatos, descrevendo todo os dados estátisticos e a repercussão na midia nacional e internacional.
    2. Elaborar dados comparativos com outros torneios mundiais.
    3. Protocolar o pedido a FIFA.

    Independente do reconhecimento oficial da FIFA, o pedido poderá ser divulgado na mídia nacional e internacional, incluindo a internet e o site oficial do clube.

    Ficará a critério de cada leitor ou espectador a avaliação do grau de importância e sua validade. Seus torcedores seriam os divulgadores, pois se orgulhariam do seu passado, que poderá influenciar o futuro de mais torcedores baguenses. E vou mais além, se este fato for macissamente divulgado no bairro de Bangu, inclusive inaugurando um momumento aos herois desta conquista, levará aos moradores do bairro de Bangu, o orgulho de sua comunidade na afirmação da cidadania.

    Lembrando que Cristóvão Colombo só foi reconhecido como o descobridor das Américas, após 100 anos da chegada ao novo continente. Mesmo lamentando, que este fato tenha levado a “descoberta” a ter o nome de “América”, em homenagem a Américo Vespucio, o feito foi reconhecido e eternizou seu nome no mundo todo, incluindo a homenagem dos “colombianos”.

  5. Bem lembrado Walter! Depois verei se o jornal fez alguma matéria sobre essa conquista do América. Geralmente, o jornal publicava as matérias quando tinha um correspondente. Se tiver postarei com gosto! Rs

    Obrigado pela dica!

    Um grande abraço ao amigo

  6. Sérgio.
    Assim com o Bangu em 1960, o America conquistou o Torneio Internacional de Nova York em 1962.
    Venceu o Belenenses, de Portugal, nas finais por 2×1 e 1×0.
    Como campeão do Torneio Internacional de Nova York, disputou com o Dukla Praga (Campeão de 1961) a American Challenge Cup, empatando de 1×1 e perdendo por 2×1. A American Challenge Cup passou a ser disputada a partir de 1962.

   
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