Após meses procurando alguma fonte confiável para desvendar tal dilema, cheguei até Gilson Carraro. Nada mais, nada menos do que o último dos fundadores vivo do Guarani Esporte Clube, de Volta Redonda. Aliás, Gilson Carraro foi dirigente, jogador, técnico e um eterno apaixonado pelo Tricolor de Aço.

O Guarani Esporte Clube foi fundado numa terça-feira, no dia 8 de agosto de 1944 com o nome de Gasômetro Esporte Clube. Gilson fez parte da primeira diretoria no cargo de segundo secretário.

MUNDANÇA DE NOME   

A mudança de nome: de Gasômetro para Guarani foi uma imposição da Liga de Desportos de Volta Redonda (LDVR). Aliás, diversos times foram obrigados a mudar a sua nomenclatura: Aciaria, Almoxarifado, Pintores, Central de Ferro, Transporte, 9 de Abril, Aniversário de Getúlio, Sete de Setembro, Siderúrgico, Clube dos Funcionários e Acampamento. Essas equipes se transformaram respectivamente em: Olímpico E.C., Humaitá, Rodoviário, Cruzeiro, América do bairro Rústico, Sete de Setembro, Siderúrgico e Clube dos Funcionários.

O esporte de Volta Redonda, antes da criação da Liga de Desportos de Volta Redonda (aliás, irregular, pois em cada município só poderia haver uma liga e Volta Redonda como distrito de Barra Mansa, não poderia ter liga, mas nós estávamos na Ditadura de Getúlio Vargas, criador da Companhia Siderúrgica Nacional) era administrado pela CSN e os clubes inscritos para o campeonato eram representados pelos departamentos criados para a construção da usina”, revelou Gilson.

UNIFORMES

Como a maioria dos fundadores eram torcedores do São Paulo Futebol Clube (SP), o uniforme nº 1 do clube era o Branco com as listras verticais em vermelho e preta; no centro e o 2º igual ao uniforme da seleção paulista, inclusive a bandeira. Esse detalhe na votação para as cores do uniforme foi decidido em reunião da Diretoria. Como dos 10 membros que formavam a direção, seis eram paulistas e o restante do Rio fica fácil entender o porquê da escolha.

TÍTULOS MUNICIPAIS

Os três primeiros anos de vida, o Guarani teve boas administrações com os presidentes Paulo Frederico Diniz Carneiro e Bernardo Paulino de Oliveira Benfeito. O resultado se refletiu em campo, com o Bi-campeonato municipal em 1946 e 1947.

Sua Sede Social se encontrava na Avenida Amaral Peixoto, no prédio onde funcionavam os correios. A empreiteira que estava construindo a laminação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) deu o apoio financeiro assim como Wandir de Carvalho que mais tarde foi Prefeito de Volta Redonda, que às vezes atuava como goleiro.

Mas a vida de time pequeno não é fácil. Então, em 1948, com a desistência da empresa de continuar colaborando financeiramente, somado ao afastamento de alguns diretores, o Guarani encerrou suas atividades em 1948. Nessa época o tesoureiro do clube, Sebastião Rufino Koeler recolheu troféus, livros de ata e livros de caixa; e guardou em uma arca de madeira em sua residência.

Após três anos de ausência, Gilson Carraro, juntamente com Benevenuto dos Santos Neto, Sebastião Rufino Koeler e Sebastião Souza e Silva, reorganizaram o Guarani para voltar a participar dos campeonatos municipais promovidos pela Liga de Desportos de Volta Redonda, em 1951.

Benevenuto providenciou a realização de uma Assembléia Geral, e elegeu com os sócios que ainda existiam uma Junta Governativa que foi assim constituída: Presidente Benevenuto dos Santos Neto, Secretário Gilson Carraro de Paula, Tesoureiro Sebastião Rufino Koeler e Diretor de Patrimônio Sebastião de Souza e Silva.

Depois de iniciado o Campeonato Municipal de 1951, o Tricolor de Aço já possuía uma equipe participando dele. Com muita dificuldade, o clube manteve as primeiras colocações, mas precisava de reforços. Nesse caso, Gilson Carraro (dirigente e técnico) conseguiu seis reforços do Vargem Alegre Sport Club, aproveitando o fato que o time não disputaria o campeonato de Barra do Piraí: reforçou o time com seis reforços: Rubens Machado, Hélio Cardoso, Carlos Fernandes, Leonel de Souza, Aloísio de Souza e Domiciano de Oliveira (Saninho).

Assim, sob a batuta de Gilson Carraro, o Tricolor de Aço conseguiu um feito inédito ao conquistar o Tricampeonato Citadino: 1951, 1953 e 1955.

 

GUARANI SE TORNA O 1º TIME PROFISSIONAL DE VOLTA REDONDA

Com o acumulo de triunfos o Guarani Esporte Clube percebeu que o futebol amador tinha se tornado pequeno. O clube resolveu partir para o profissionalismo, porque a meta era ser campeão e inscrever o clube no Campeonato de Futebol do Rio de Janeiro. O campeonato promovido pela Federação Fluminense de Desportos era organizado em diversas zonas.

Após o termino dessa fase classificatória, os campeões disputavam o título. O Guarani fazia parte da quarta zona e só conseguiu uma vez o título, mas participou de todos os campeonatos promovidos. Ainda em Volta Redonda existiam as equipes da Associação Atlética Comercial, Associação Atlética de Volta Redonda e quase no final do profissionalismo da região o Flamenguinho Futebol Clube.

Quando o campeonato era realizado com todas as equipes profissionais do Estado, o Guarani só conseguiu por duas vezes o quarto lugar. As equipes do Royal Sport ClubCentral Esporte Clube de Barra do Piraí, o Barra Mansa Futebol Clube e as equipes de Campos eram adversários fortes.

 

A DITADURA COLABOROU DECISIVAMENTE PARA A EXTINÇÃO DO GUARANI

O assunto sobre a extinção do Guarani ainda mexe com Gilson Carraro. Afinal, o adeus não foi por incompetência do clube, mas sim por uma manobra política. Os anos 70, a Ditadura no Brasil começava a balançar. E o futebol passou a ser um instrumento para acalmar o povo. Assim, o Campeonato Brasileiro ganhava dezenas de clubes de todos os estados, com o intuito de tentar agradar a todos os estados.

Assim, os militares seguindo o ditado “coloque o seu clube no Campeonato Carioca e ganhe as eleições do seu Município!”… Decidiram que Volta Redonda deveria ter um time na Primeira Divisão do Rio. Apesar de o Guarani, time mais popular do município, existir, a decisão era de montar o Volta Redonda Futebol Clube.

Com essa decisão a CSN vendeu para a Prefeitura de Volta Redonda, o estádio General Silvio Raulino de Oliveira, onde o Guarani jogava, além de ter a sua sede. Sem campo e casa, o Guarani, encerrou suas atividades em 1975. “A formação de um clube com o nome de Volta Redonda foi incentivada pelo então Prefeito Nelson Gonçalves, do Presidente da CSN, me parece Juvenal, e do Presidente da CBD, Heleno Nunes (Coloque seu clube no campeonato carioca e ganhe as eleições do seu município”, afirmou Gilson Carraro, que em seguida fez um desabafo:

O Guarani foi vitima da política por duas vezes, a primeira quando esteve parado de 1948 a 1950. Era o seu Presidente o Deputado Bernardo Paulino de Oliveira Benfeito e a segunda em 1976 no governo de Nelson Gonçalves dos Santos, quando o Guarani perdeu o estádio General Raulino de Oliveira e seu patrimônio foi para o depósito judiciário durante a disputa judiciária com a CSN e desapareceram os uniformes, troféus, etc”, concluiu Gilson Carraro, 89 anos.

Apesar de o Guarani ser o único time profissional até aquele instante, a nova diretoria do Volta Redonda foi formado sem ter nenhum membro do Guarani. Assim, um time de maior torcida no município, com estádio, sede… Da noite para o dia se viu sem nada. Um final injusto e ditatorial, para o clube que por mais de três décadas deu alegrias, orgulho para os cidadãos volta-redondenses e até hoje há uma lacuna a ser preenchida.

 

Fonte: Acervo de Gilson Carraro, um dos fundadores do Guarani EC, de Volta Redonda 

  17 Responses to “Guarani Esporte Clube – Volta Redonda (RJ): A sua verdadeira história”

  1. Meu caro André… Vamos por partes?
    Primeiro. Apesar de ter manifestado o meu lamento, eu concluí que respeito à decisão que eles escolheram. Está muito claro isso, no meu breve comentário.
    Outra. Então se eu seguir a sua opinião há, claramente, uma grande ironia. Afinal, se eu perdi tempo e dinheiro para encontrar, por exemplo, o Guarani… Não seria ético eu divulgar, né? Rrsrs
    E para finalizar. O propósito deste site estaria errado? Rsrs
    Pense nisso! Rsrs
    Abs,

  2. Nao considero o posicionamento desses historiadores como algo errado. Afinal, eles perderam muito tmepo e dinheiro pra correr atras de um só clube. Nao seria etico por parte deles sair divulgando os seus arquivos assim.

  3. É Gerson… Pena que eles não compartilham os escudos relíquias que possuem.
    Só me resta respeitar o posicionamento deles.

    Abs.

  4. Sergio, já troquei informações com ambos, mas nenhum pessoalmente. Realmente, eles conhecem muito dos antigos clubes cariocas!

  5. É isso Gerson! Sou afavor de tudo que a pessoa faça e aquilo dê prazer!! Quando fazendo algo do que nos satisfaz somos pessoas mais felizes. E, além de nós, quem se beneficia são as pessoas que estão em nossa volta!
    Ah… Por conscidência também visito RSSSF Brasil. Conheci esse site por dois membros (não sei se ainda são): Pedro Varanda e o Auriel. Essa dupla tem cada escudo relíquia do Rio… Rsrrss
    Um grande abraço ao amigo!

  6. Esse site é um dos meus três hobbies que na verdade é/são um só. Os outros dois são a RSSSF Brasil no qual sou diretor e o outro é aqui no blog, ou seja, tudo é futebol, estatística e história.

    Novamente agradeço pelos elogios. Por essas e outras que tento manter o site sempre atualizado. O trabalho e a família às vezes faz com que coloque-o como terceira prioridade, mas não abndonarei jamais!!!

    Abs

    Gersonhttp://cacellain.com.br/blog/wp-admin/edit-comments.php#comments-form

  7. Obrigado pelas palavras Gerson!
    Esse site é seu? Há um bom tempo eu visito o seu site para ver as novidades dos escudos!! Rsrs
    Como o mundo é pequeno! Rsrs
    Aliás, parabéns pelo site. É um dos melhores que eu conheço!!
    Um grande abraço!

  8. Sérgio,

    Parabéns pelo artigo, tomei a liberdade de atualizar o escudo do GEC no meu site:

    http://www.futebolnacional.com.br

    Com os devidos créditos

  9. Valeu Farah!! O que facilitou foi a vitalidade e a excelente mémoria do último fundador vivo: Gilson Carraro. Um jovem de 87 anos, que esbanjou simpatia e serenidade. Aí bastou que eu não atrapalhasse!!! Rsrss
    Gosto de escavar o passado. O problema é que, às vezes, demora chegar ao “tesouro”!!! Rsrs
    Um grande abraço.

  10. Parabens artigo maravilho, e muito bem detalhado, seja muito bem vindo, Sergio.

  11. Obrigado Ielo! Verdade. Uma história que poderia perfeitamente virar um filme. Drama e emoção não faltam.
    Sobre as duas dúvidas… Uma dá para matar agora. Uma das primeiras perguntas que fiz ao Senhor Gilson foi, justamente o nome, pois nos anos 40, era comum “Futebol Clube” ser escrito “Footbal Club” ou “Fott-Ball Club”, Pharmacia ou invés de hoje (Farmácia) e Guarani, naquele tempo tinham alguns que se chamavam Guarany. Mas ele afirmou ser Guarani. Tanto é que nas fotos está escrito dessa forma.
    Com relação ao Flamenguinho Futebol Clube, o que eu tenho aqui, no meu arquivo é o C.R. Flamengo de Volta Redonda. Mas prometo ao amigo que perguntarei ao Gilson se ele pode dissipar essa dúvida. Ele já me ajudou (além do Guarani) em descobrir o escudo do América de Volta Redonda. Espero que ele possa matar mais uma xarada! Rsrs
    Combinado?
    Um grande abraço!

  12. Excelente artigo com belos depoimentos,

    Ficou claro a luta destes diretores, como seu Gilson Carraro. Formaram o melhor clube de futebol de Volta Redonda, que foi “destruido” pela politica local com apoio da ditadura militar.

    E se a história fosse outra.

    Mantivesse a mesma diretoria do Guarani, com o seu Gilson, somente alterando seu nome para o da cidade, a historia do Volta Redonda FC, seria mais verdadeira e autêntica. Mas, e os outros clubes da cidade, estariam representados?

    Embora o artigo, vá além da minhas espectativas, como a curiosa obrigatoriedade de mudanças de nome, ainda fiquei como duas dúvidas:

    1. O nome correto é Guarani, ou Guarany como “y”.

    2. Este Flamenguinho Futebol Clube sitado no artigo seria o Flamengo de VR? Qual o nome correto deste clube?

    Parabéns pelo artigo

  13. Gostaria de agradecer a todos! Fico feliz quando o trabalho que faço tem a aprovação, principalmente, aqui, onde há catedráticos em pesquisas. Aproveitando o embalo, o escudo foi vetorizado por meio a uma flâmula muito bem conservada. Depois acabei deletando essa imagem.
    O ideial seria postar lado a lado ambos!! Rsrss
    Vivendo e aprendendo com os erros!! Rsrsrs
    Abraços a todos!

  14. parabéns!!!

  15. Que cartão de apresentação!! Excelente, parabéns e seja bem-vindo.

    abs

    Rodolfo Kussarev

  16. Parabéns pela matéria. Abraços.

  17. boa, sergio!!

    agora, q foi encontrado dados sobre o guarani, falta encontrar sobre o uniao, tbm de volta redonda.

   
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